segunda-feira, 7 de abril de 2008

Coelhinho da Páscoa ou Cristo na cruz?

Desde que me descobri grávida, assumi comigo mesma o compromisso de sempre dizer a verdade para a minha filha. Na medida do possível, tenho sido verdadeira ao afirmar que ela irá ao pediatra para tomar vacina, que hoje não é dia de piscina na escolinha (ela bem que gostaria que todos os dias fossem de piscina, e minha empregada tem o péssimo hábito de tentar acalmá-la na base da mentira, dizendo só as coisas que a pequena gostaria de ouvir). Ao ouvir a verdade, ela fica chateada, claro, mas aprende que a vida nem sempre é como gostaríamos que fosse e, principalmente, que os pequenos dissabores fazem parte do dia-a-dia e não matam ninguém de desgosto.

Só que nem sempre dá para seguir ao pé da letra o compromisso com a verdade. Afinal, da infância faz parte também um quê de magia, aquele sentimento fantástico do qual sentiremos saudade na vida adulta. Ainda hoje lembro com carinho das vésperas de Natal, em que aguardava ansiosa a chegada do bom velhinho. O que me fascinava não era o brinquedo que eu viria a ganhar, mas a figura do Papai Noel, aquela coisa mágica de acreditar realmente que existe um velhinho bondoso que distribui brinquedos para todas as crianças do mundo e que visita os contemplados a bordo de um trenó voador. A pior parte do meu processo de crescimento foi o fim da magia. Desde então, os Natais perderam a aura de encanto. Continuaram sendo dias especiais, mas desprovidos daquela beleza que tanto me fascinava.

Por isso, foi uma alegria redescobrir na minha filha o encanto pela figura fascinante do Papai Noel, o que me fez abrir pequenas brechas no meu compromisso de dizer sempre a verdade.

Para não enfatizar somente o lado pagão da coisa, passei o mês de dezembro contando para a pequena a história do menino Jesus, que, por sinal, ela adorou. Para complementar o ensinamento, dei de presente para ela um presépio infantil, da marca Little People, ideal para crianças muito pequenas (leia-se: inquebrável). Então ela conseguiu captar parte da mensagem e saiu contando para os amiguinhos que o Papai Noel dava presentes para comemorar a chegada do menino Jesus.

Chegada a época da Páscoa, optei por fazer a brincadeira do Coelhinho. Afinal, faz parte do "pacotinho básico das crenças infantis". Não tem como acreditar em Papai Noel sem acreditar em Coelhinho da Páscoa, e vice-versa! Só que, para cumprir meu compromisso de dizer a verdade, eu precisava também contar a história por trás da celebração da Páscoa. Disposta a encarar o desafio, chamei a pequena e a coloquei no meu colo.

-"O Coelhinho da Páscoa vai deixar ovinhos de chocolate para você amanhã"
-"Por quê?" (terrível fase essa, a dos porquês!)
-"Porque é um dia muito especial".
-"Por quê?".
-"Errrr...".

Na hora me veio a imagem de Cristo crucifixado, e ainda pensei resumir contando que o Menino Jesus morreu na cruz e depois voltou a viver, mas imaginei que ela choraria ao saber que o Menino Jesus, aquele do presépio, que nasceu há poucos meses, bem ali no Natal, o principal responsável por ela ter ganho um presente do Papai Noel, morreu e foi para o céu, e continuaria chorando copiosamente com a notícia, por mais que eu dissesse que ele ressuscitou.

Pensei bem. "Quer saber por que é um dia especial? Ora, é por que o coelhinho da Páscoa vai deixar logo cedo um monte de chocolates, depois vamos almoçar com os seus avós, em seguida vamos para a casa dos seus outros avós, para você brincar com os seus priminhos... Quer algo mais especial do que isso?"!

E foi assim que enterrei o meu "compromisso com a verdade". Afinal, mais fácil uma criança acreditar no Coelhinho da Páscoa do que na existência de pessoas capazes de matar Jesus, não é mesmo?

4 comentários:

RobertaPaiva disse...

É verdade a infância é a época mais mágica de toda a nossa vida!
Eu como você também alimento nos meus pequenos todos esses sonhos, fantasias, faço que cada dia da vida deles seja um dia encantado.
Para uma criança basta uma folha caída de uma árvore e esquecida no chão para se transformar no barco mais radical de todos, a tampa da mamadeira vira capacete do super-heroí, um par de meias vira um fantoche divertido, um lençol preso no sofá se transforma na mais misteriosa das cabanas e por aí vai.
Quem somos nós para desmanchar essa capacidade fantástica de sonhar? Temos mais é que aprender com eles essa divina arte de saber viver rs!
Adorei o texto, Vi! Muito bom!!
beijos
Beta

Fabi Cimieri disse...

Acho que nenhuma leitora dess eblog pode ter dúvidas de que nós somos mães com a cabeça no mundo da fantasia, né? Aliás, o significado da infância para mim é justamente esse, de podermos ver o mundo como ele realmente é: um lugar mágico e imprevisível, onde acontece as coisas mais belas e mosntruosas, com todos os príncipes e bruxas dos contos de fadas.
bjs e postei para matar as saudades daqui

Fragmentos da maternidade disse...

Também procuro mostrar aos meus meninos a verdade sempre, mas não podemos negar que se a pureza e a fantasia da infância fossem eternas o mundo seria bem mais belo.

Mayalu Moreira Felix disse...

Oi, Vivian, gostei muito do seu texto, e o postei no meu Blog. A idéia central da sua postagem rende uma bela discussão. Abraços,

Maya